2.8.17

a festa

mais uma festa onde adolescentes confusos bebiam. inseguros e corajosos apesar de todos os medos. uma dessas tantas festas que aconteciam nas casas cujo propósito era beijar. embora fossem beijos melados e desastrosos entre meninos e meninas. depois correr afetados pelos primeiros beijos e contar para seus grupinhos. meninas para meninas e meninos para meninos. ambos os grupos se misturavam apenas para dançar e beijar.

eu beijava os meninos. dos primeiros beijos eu gostava, mas depois tudo ficava azul. eu gostava do azul. mas era apenas azul. gostava mais de conversar com os meninos que de beijar. mas eles queriam apenas beijar e tudo era muito azul para eu querer apenas beijar. 

certa festa, aos 12 anos que me corriam pelos olho, vendo apenas o azul e já sentido a estranheza da empolgação das outras meninas, desconectada da festa, da farra, daquela vida monocromática, perdida sob um caramanchão olhando os casaizinhos se apertando contra paredes eu ouvi: "garota, não é assim que se fuma um cigarro."

e na minha frente ela sentou, calça jeans, camiseta e jaqueta preta. batom vermelho, cabelos curtos e uma franja longa que lhe caia tão perfeitamente. ela pegou meu cigarro e me explicou e mostrou como tragar. mas eu não quis aprender. a verdade é que eu havia tentado antes e tossi ao ponto de ficar roxa e não queria repetir aquele vexame no momento. preferi deixar o cigarro com ela e olhar como ela o pegava e como seus lábios o apertavam e depois soltava a fumaça.
ela tagarelava e ria, eu me afundava na covinha do seu sorriso. garotos chegavam convidando para dançar e nós só balançávamos negativamente a cabeça. as músicas tiveram outro ritmo e fiquei confusa sem saber exatamente o que me acontecia. só sabia que queria ficar ali com ela. conversando sobre qualquer coisa. mas a insistência dos garotos nos fez sair da festa.

ela era prima de alguém. era de longe. vinda de um universo paralelo para me mostrar as cores. para me ensinar a tragar a vida. para tremer e rir como minhas amigas. eram as férias de julho, uma semana beijando, tocando pequenos seios e queimando como se o vento tivesse arrancado minha espinha para brincar de espanar estrelas. uma semana que aprendi a ver as cores, assim como minhas amigas apaixonadas se comportavam, mas eu não tinha amigas para contar tudo aquilo que me acontecia. e eram tantas coisas para perguntar se elas também sentiam.
a semana se foi com a fumaça de cigarro que ela soltava tentando fazer círculos no ar. e eu era outra. e isso de ser outra sempre me causou espanto. como pessoas chegam e mudam perspectivas e sensações sobre o mundo? eu era outra. e gostava de quem eu era. mas não poder falar me adoeceu.

 a vó me levou ao médico. e diante do meu silêncio o médico pediu para ficar sozinho comigo pois fisicamente eu estava bem. mas como contar para ele que a beleza de uma semana estava me torturando?
como dizer para ele que conheci a temperatura, os sons, o cheiro e o gosto das cores encarnadas? "a vida me sufoca de tão boa que as vezes é", respondi finalmente. mas parei aí. então ele tirou da gaveta um caderno e uma caneta e me prescreveu o remédio que até hoje faço uso: escrever.

Laura Makabresku



 
 


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